quinta-feira, 3 de março de 2011

Paranóia e mistificação

OK, agora chega dessa palhaçada de falar que Monteiro Lobato era eugenista. Eugenia não é o que ele defendia, não como eugenia é hoje entendida. Se ele tinha seus credos, está longe de ser racista ou defensor de uma pureza racial absurda. Não, não li O presidente negro — como de resto todos os que apontam essa obra com dedo denunciatório parecem nunca ter lido outra obra lobatiana. Não leram sua defesa do negro açoitado pelo resquício da hipocrisia social advinda com o fim da escravidão, na figura de Tia Nastácia, essa sábia que cria a vida (Emília e Visconde), como uma deusa, que aprende no medo a ter forças para desbravar o irracional, que é um acalento para o caos da modernidade do “progresso” quando estende suas mãos cansadas de trabalho duro (negro trabalha e trabalha muito) para afagar as crianças do sítio de Dona Benta ou lhes fazer doces, pipocas, contar as histórias que seus antepassados lhe foram ensinando; também não leram a tradução que Lobato fez de As aventuras de Huckleberry Finn, essa obra que é talvez um dos maiores libelos contra o racismo, a escravidão, a segregação racial e tudo isso que de podre acusam Lobato — ou quererão esses senhores lhe impingir a fabulosa pecha de ter adulterado o sentido da obra de Twain? Ou quem sabe Lobato, em sua eugenia galopante, teria usado esse célebre romance para blindar-se no escudo da hipocrisia? A ironia é que Twain também vem sendo lido por censores grotescos como preconceituoso em várias passagens desse livro; não entenderam o narrador moço ignorante (da instrução “formal”, apenas) que narra a história.

Consagrar a um escritor uma interpretação puramente literal de suas obras é a coisa mais estúpida e ridícula que alguém pode fazer, e uma escritora, Ana Maria Gonçalves, deveria ser a primeira a entender que Lobato nunca investiu no “processo de chamar negro de burro aqui, de fedorento ali, de macaco acolá, de urubu mais além”, como essa senhora afirma tão categoricamente em seu artigo.

Falta a ela, e a tantos outros apressados detratores de Lobato (como Muniz Sodré), entender que quando Emília chama Tia Nastácia de “negra beiçuda”, entre outros ataques violentíssimos, não é Lobato que condena a existência dessas “almas negras” entre nós brancos que somos ou deveríamos ser, mas é uma de suas personagens, errando, agindo mal, sendo cruel e nitidamente servindo de contra-exemplo — que o choque das expressões tão grosseiras deveria deixar inquestionavelmente explícito, mas que, pelo visto, nesse ponto Lobato falhou: Ana Maria Gonçalves e tantos outros não entenderam. Acham que haver um personagem racista num livro é racismo do autor, é obra racista. É um argumento tão grotescamente estapafúrdio que mais uma vez me surpreendo de estar aqui respondendo a esses ataques ocos de qualquer coerência.

E ainda Lobato vai além: se Emília age mal, é repreendida por Dona Benta (a dona da casa, autoridade máxima), é castigada (em Memórias da Emília, após um concerto de ofensas a Tia Nastácia, os planos da boneca de se valer de uma certa criatura angelical são frustrados e ela deve se valer apenas de sua frustração e desapontamento), é criticada (o Visconde afirma que ela é má, sem coração — Lobato eugenista criou um arquétipo bastante controverso para propagar seu racismo, parece), e, afinal, recobra a consciência moral quando percebe que cor não serve a nada, as pessoas são boas ou ruins por mil outros atributos e Tia Nastácia é um exemplo de gentileza, bondade, solicitude, sabedoria em seus modos e costumes.

Isso não é hipocrisia, isso não é eugenia, não é auto-indulgência, medo de reprovação ou receio de censura. Lobato escrevia o que queria, publicava seus próprios livros e só devia ajustar contas com as crianças suas leitoras. Das quais nunca se teve notícia que foram influenciadas negativamente por pensamentos raciais questionáveis encontrados em suas obras. O que está havendo, parece, é a eterna má vontade, preguiça e (agora sim) preconceito dos adultos. Que levam tudo ao pé da letra, que desaprenderam a contextualizar, a compreender, a “ver a vida” (como Dona Benta recomendava a seus netos), e, portanto, não conseguem ter a curiosidade, a inocência de procurar ver o que está além do superficial, do óbvio, o que as crianças faziam e ainda fazem, sempre farão. Para todas essas infelizes pessoas que só existem por preguiça de viver, Lobato ainda é pertinente e incomoda. E é por isso que ele tem se tornado maldito.

Voltando propriamente à eugenia, a senhora Gonçalves, como todo agressor que se preze, gosta de procurar argumentos nas falas e opiniões divulgadas de seu alvo de ataque. Então para ela é um pulo destacar uma frase de correspondência de Lobato como: Acham-no ofensivo à dignidade americana, visto admitir que depois de tantos séculos de progresso moral possa este povo, coletivamente, cometer a sangue frio o belo crime que sugeri. E ela então se acha na razão, comodamente esticando os dedos ante a vitória contra a literatura de sugestão; mas quem sugestiona o leitor é ela, quando não o lembra do inescapável humor de Lobato, ao reputar sérios chistes como “o belo crime que sugeri”. E o que dizer de Devia ter vindo no tempo em que eles linchavam os negros? Chega a dar pânico saber que tem gente que entende isso da maneira literal.

Não cansada, ela remonta a batidíssimas lembranças da relação de Lobato com Renato Kehl, como se admiração ou amizade fossem provas de qualquer desvio de caráter. Ora, os milhares, potencialmente milhões, de fãs da conduta “transviada” de Charlie Sheen, que o seguem nas redes sociais e citam divertidos seus feitos, essas pessoas estarão se confessando usuárias de drogas, amigas das farras, das orgias, do “misbehavior”? Faça o favor, senhora Gonçalves. Uma conclusão tão absurda quanto me desconcertam as centenas de comentários de seus seguidores no final do texto indicado acima, repleto de “macaquismo” — que eles entenderão como uma expressão racista, apesar de ser evidente que me refiro aos animais que gostam de seguir e imitar outros animais —, desinformação da pior espécie, como criticar ou “deixar de gostar” sem se prestar a descobrir e buscar fontes e materiais por conta própria. Pensar com a cabeça dos outros gera só um pensamento.

Pretendendo desmistificar um ídolo, Ana Maria Gonçalves mostra-se desesperada por atenção, como ao agregar à sua crítica elementos que nada têm a ver com a discussão: o caso do Jeca Tatu no Biotônico, época em que a publicidade no Brasil ainda era testada e não se pode hoje analisar essa experiência como sendo mais do que o que ela foi, ou seja, um experimentalismo. Extrair daí qualquer conclusão sobre o caráter de Lobato e suas intenções com suas obras é fazer uma ponte inimaginável, construída com tijolos inventados, e que, logo, não leva a lugar algum — o que se repete com a investigação tendenciosa que faz de certos destinos comerciais de obras do Ziraldo, e até um comentário totalmente deslocado sobre o Simonal —; o texto inteiro segue o mesmo iter: não possui lógica para se manter, mas fala bonito aparentando preocupação com um assunto do qual não possui referenciais para falar: citar ao acaso trechos que comprovam seus complôs forjados é o mesmo que apresentar aos amigos um cachorro que você disse a eles que sabe falar o próprio nome, e após os latidos do bicho dizer que seu nome é “Auau”. É engraçado, mas não deveria passar de uma piada. E o texto é trágico porque é enxergado com uma preocupação de verdade que não possui e não tem como possuir, pois é perfeitamente frágil em sua estrutura de acusação infundada.

O parágrafo continente da frase Afinal, há quem diga que não somos racistas. Que quem vê o racismo, na maioria os negros, que o sofrem, estão apenas "macaqueando" (e seguintes) é uma pérola da pernóstica refutação de argumentos moldados pelo contra-atacante, argumentos que nunca foram propostos pelo alvo da vez (seja Lobato ou Ziraldo ou quem for o “bode expiatório”, como Ana Maria Gonçalves reitera), coroados pela percepção reducionista de que Lobato seria um dos escritores mais racistas e perversos e interesseiros que o Brasil já teve, uma exposição macabra que joga o cesto de maçãs inteiro no lixo porque uma delas, segundo quem a observa na contra-luz, está podre. E aí Lobato é medonho racista e eugenista, mas todo o bem que ele fez para as crianças, para o aperfeiçoamento da didática, para a modernização do sistema educacional brasileiro, tudo o que ele fez para trazer mais livros bons para as crianças negligenciadas no Brasil de então (Carroll, Kipling, Twain, London, todos esses admiráveis autores ele os trouxe para cá, traduzindo e publicando essas obras com seus próprios recursos), tudo o que ele fez para a indústria do livro e, voltando às crianças, tudo o que ele fez para incutir em seus jovens leitores o gosto pela leitura, pelo conhecimento e por uma profundidade que não era esgotada — ele nunca pretendeu isso — em seus livros, e isso sem falar na fatigante luta pelo petróleo e pela saúde nas áreas rurais, bem, tudo isso é descartado sumariamente, pois quem vai dar a suas crianças um livro de um dos escritores mais racistas, perversos e de interesses escusos? Ana Maria Gonçalves presta assim um desserviço a qualquer coisa que teoricamente defende, mostrando-se incapaz de separar o joio de seu trigo alegado (nisso Muniz Sodré acerta, ao menos em parte).

Mas eu paro aqui. Não tenho interesse em chamá-la para um embate, não quero luzes para mim, não me pretendo centro das atenções e com certeza não tenho intenção de discutir (com) alguém que não sabe que na vida existe humor, contexto, sarcasmo e tantas outras armadilhas da língua para sermos apanhados em nossos vis desejos de literalidade. Tampouco quero prosseguir nos meus desagrados com o texto da senhora Gonçalves, tanto mais que ele incorre em tantas incorreções e inverdades (até raciais, diria, pregando subliminarmente uma espécie de racismo inverso) que não tenho qualquer recompensa em debater uma a uma as dezenas de problemas que tenho com ele.

sexta-feira, 25 de fevereiro de 2011

Tilt

Não saber o que fazer é uma das piores sensações que existem. Não é à toa que Hamlet há séculos impressiona as pessoas: os dilemas são muitos e não há como resolver a tudo. Eu estou em um, também.

Quando somos pequenos, a indefinição sobre o que queremos da vida é até graciosa: "quero ser astronauta", "vou ser modelo", tudo é motivo de riso e enternecimento. Mas quando se chega na minha idade e é preciso se sustentar, essas dúvidas são a pior chaga que se pode ter.

Não saber o que fazer é uma coisa tão feia e atroz que não só é insuportável tentar fazer aquilo que você despreza ou para que não tem o menor dom, capacidade ou habilidade, como também é... impossível. Chega um ponto em que você deseja tentar se burocratizar ao ponto de virar um robô, braço mecânico sem emoções designado para o desempenho de determinada tarefa; só que você está enferrujado, e não encontra o óleo adequado para se movimentar. Você é um monte de ferro-velho.

Aí você tenta se encaixar, e percebe que tanto pior é sua falta de perspectiva porque você não tem com quem dividir essa jornada. Amigos? Nenhum de verdade; colegas e conversas esporádicas, mas nenhum afeto real e imprescindível, ninguém precisa de você. Família? Zombam de suas fragilidades, pois ela que as construiu em sua maior porção. Companhia? Inexiste, pois é impossível gostar de alguém que não se encontra. O desencontro dita as regras, e se você quer sair desse mar, não adianta procurar uma saída por baixo, o afogamento só se torna mais presente — e você está azul atrás da luz solar que já está tão longe quanto seus ideais.

Ideais que você também não tem, pois se fosse forte o suficiente entenderia que é preciso se metamorfosear para escapar dos predadores; e você, bicho ignorante e imprestável, não muda sua cara porque não tem outro avatar, ficaria um rosto de vazio que também não lhe serviria para nada.

E quando você se anima um pouco para sorrir pelo menos de sua desgraçada sorte, aparece aquela pessoa que mina suas quase nulas forças com frases como "é preciso correr atrás" ou "você está reclamando de barriga cheia".

A vida é cheia desses vazios.

terça-feira, 8 de fevereiro de 2011

Bebebê

Eu não sou uma pessoa sociável. Nunca tive muitos amigos, não tenho o "perfil" de alguém popular, que sempre é chamado para eventos, festas, encontros. E até entendo de certa maneira por que as pessoas se fecham, não querem mais conviver tanto com os outros, querem liberdade e solidão na medida planejada por elas. Mas nada disso me faz compreender um fenômeno que não dá mostras de se enfraquecer: o Big Brother.

O BBB, como é chamado aqui, atrai pessoas de todos os níveis, culturas, regiões. A despeito de uma fase de "testes", hoje ele já possui um respaldo (se não explicito, tácito e conivente) de celebridades influentes e de pessoas de boa "instrução". Um programa que seria unanimemente achincalhado anos atrás hoje possui uma sombra de intelectualidade brejeira que o consagra como estudo antropológico de tipos e como uma vertente do exibicionismo que hoje é o prato do dia como discussão do alcance da mídia, por exemplo. Mas mesmo assim, não consigo entender a razão desse sucesso.

Porque o mesmo tipo de gente que ignora solenemente todas as pessoas na rua, todos os conhecidos e parentes e amigos, fica grudada na televisão para conferir a pasmaceira de um tédio avassalador formado por pessoas que se comunicam como primatas e que em teoria são tão interessantes de se observar quanto capim que cresce na grama.

Não se trata do policiamento do "conteúdo". Essa palavrinha entre aspas é perigosa porque remete a dogmas e convenções, e não é disso que eu falo. Acontece que é para mim inexplicável observar uma filmagem mambembe de meia dúzia de pessoas conversando as maiores imbecilidades jogadas numa piscina, ou sentadas num quarto, ou perto de um churrasco. O que isso representa? Não sei. Qual a atração disso? Não imagino. Não sei por que esse jogo seria mais interessante que perceber as conversas de ponto de ônibus, se é a "real life" que seus espectadores esperam.

Se visto pelo viés antropológico, o BBB despertaria algum interesse, se. Se? Se não fosse armado, encenado, montado. Ora, aí paradoxalmente morre a "real life". Se é tudo fingido, pensado e atuado, onde está a realidade? E aí qual é a justificativa para acompanhar as besteiras dos participantes, se eles na verdade não sentem aquilo e são só mentiras para se sair bem no jogo e na câmera? De novo, os espectadores do BBB querem teatro? Mas então por que não se interessam por essas interpretações em outros níveis menos grotescos e estúpidos?

Chegamos às "gostosas". Já é muito questionável chamar de gostosas mulheres musculosas que possuem rigidez eqüina em suas coxas e glúteos, e mais bíceps e tríceps que qualquer herói mitológico; mas se todas as participantes já se exibiam em vídeos e revistas masculinas, em sites e em outras publicações, também não se pode compreender o interesse em vê-las transitando por entre os cômodos de uma casa à espera de um momento de flagra indiscreto, rastro da intimidade tão ansiada por parte dos espectadores.

Acho que a única explicação que consigo vislumbrar para esse deprimente fenômeno é que o BBB é algo na moda, para discutir no bar, na faculdade, na escola e no trabalho, e simplesmente ver algo tão abjeto assim é um exercício para fomentar conversas bobas e ocupar um tempo de ócio que poderia ser usado para mil coisas mais interessantes. De qualquer maneira, acho um programa e uma tendência horrorosos.

O que é verdadeiramente lamentável é que a Cultura, o único canal de boa programação na televisão aberta, agoniza pelas sevícias recebidas do governo, de sua própria administração e também do público, esse mesmo público que diz reclamar da péssima qualidade das atrações televisivas mas que não desgruda de seu BBB diário — eles fazem que nem os participantes do BBB, pretendendo sentimento onde só existe descaso.

segunda-feira, 7 de fevereiro de 2011

Abismo de um sonho

Desde pequeno eu leio muito. Não que eu seja intelectual ou um grande pensador, mas sempre gostei de ler. Gibis, revistas, livros. Por isso, nada mais natural que me interessar também por escrever; e assim, tenho desde uma certa idade uma considerável produção literária: contos, novelas, esboços de peças, poemas, além de uma grande produção de crítica de cinema, textos sobre livros, quadrinhos, música, além de posts de blogs, comentários em fóruns etc. Ou seja, sempre escrevi. Sempre mesmo.

Mas dá de repente aquela vontade de voar mais alto, de ir um pouco além; então nasceu o desejo de ser publicado. Eu já havia pensado, anos atrás, em mandar uma coletânea de contos para uma editora, mas os prazos de resposta ou eram incertos ou eram muito extensos. Então fatalmente desistia. Até que pensei: "há anos pensava em mandar originais e o tempo de demora para ter alguma definição me angustiava; mas acabou que passou um tempo muito maior de lá para cá e eu continuo sem expectativa na vida ou na carreira, por que não tentar esse sonho?".

Aí nasceu o tal projeto de que falei. Trata-se de um pequeno romance, escrito no segundo semestre do ano passado. Não é mal escrito e nem propriamente ruim, apesar de obviamente não ser uma grande literatura; mas me empenhei e, com o tempo livre de que dispus (mesmo que aos pulos e aos trancos e barrancos, com muitas interrupções), concluí o livro no final de 2010 e neste começo de ano o revisei. Estou vendo como registrá-lo na Biblioteca Nacional e assim ficar seguro quanto a plágios e outros medos que assolam todos os autores, até os fracassados como eu. Mas isso é o de menos: a aventura começa agora.

Ou mais exatamente as desventuras. Publicar um livro, se você não tem nome, contatos, influências, "pistolão" ou uma inacreditável sorte é algo muito quimérico no Brasil. O mais provável é que as editoras para as quais eu enviar o romance joguem-no fora assim que puserem nele as mãos, o que é muito desolador mas nem tanto incompreensível: com milhares e milhares de livros sendo escritos e publicados, por que lançariam logo meu empreendimento tão humilde?

E o pior não é isso. O pior é que as grandes editoras, que têm alcance, são aquelas que por último se interessariam por uma publicação como a minha; elas querem lançar os medalhões, e nós neófitos ficamos atados e só podemos nos socorrer com as editoras independentes. Que são nobres em esforço e intenção, mas ineficazes no resultado; seus livros são impressos sob demanda, eles não mandam cópias para livrarias, a literatura que investe em selos assim infelizmente é a fadada ao perecimento, com um livro assim predestinado a virar um simples bibelô, algo que alguém imprime para "provar um ponto" ou se envaidecer, chegar com uma cópia para um conhecido um dia qualquer e dizer: "olha, eu já publiquei um livro, sabia?". Não, não há como ninguém saber. É desesperador lançar-se de cara numa empresa que virtualmente irá lhe custar a vida — ou a carreira que você ainda anseia seguir.

Mas e aí como fazer? Todas as portas estão fechadas para você e não há chave capaz de abri-las; investir com um machado pode dar a ilusão de que você passou daquela etapa, mas no final das contas você chegou ao fim do jogo na porta falsa: ela não existe, é um desenho pintado na parede.

Mas eu vou tentar, apesar de tudo. É uma aventura que não me trará nada de proveito, só vai me fazer perder dinheiro, saúde, ficar ansioso, nervoso, desgostoso. Mas já deixei há muito tempo de acreditar que as coisas irão se ajeitar por si só, que tudo vai dar certo no final e que nas linhas tortas meu nome vai ser escrito direito pelo tempo e destino. Não, não posso esperar ajuda de ninguém nessa hora. Só de mim. Seja o que for.

(Certos sonhos se não realizados viram obsessões. Ou, pior, frustrações.)

quarta-feira, 2 de fevereiro de 2011

Rocinante

Há cerca de três semanas resolvi perder um medo antigo e ler de uma vez por todas o Don Quijote (ou Dom Quixote) de Cervantes. O livro sempre me pareceu ser ótimo, todos comentam maravilhas dele e é considerado por todo mundo uma das melhores ficções já escritas; mas minha preguiça se devia a um problema antigo meu: sou MUITO lerdo para ler. O Quijote tem mais de um milhar de páginas, e isso me parecia muito desanimador. Mas aí tomei como resolução para o ano novo ler algumas pendências antigas acumuladas há anos. A edição do Quijote que estou lendo, a ganhei do meu pai em 2007. E vou falar: que livro MARAVILHOSO! Em todos os sentidos.

Primeiramente eu vou destacar a beleza do livro da Alfaguara, a edição em homenagem ao quatrocentenário da primeira parte do livro; além de um acabamento editorial perfeito, a edição tem mil apêndices, as portadas originais, explicações detalhadas sobre os arcaísmos da obra, um glossário extremamente completo e útil, mais o texto integral em espanhol com apontamentos que esclarecem, solidificam o entendimento e aguçam a curiosidade, aumentam a vontade de contextualizar o processo de escrita de Cervantes, suas fontes, influências, deixam claro as piadinhas de gramática, os erros (deliberados ou não) cometidos pelas personagens, as sutilezas empregadas na construção das frases, e tudo isso sem parecer intelectualóide, pedante, acadêmico (naqueles sentidos ruins), dando novos sentidos à compreensão do texto, auxiliando na busca por uma experiência completa de leitura. Vou dar um exemplo: no começo da obra, Cervantes descreve com muito detalhamento as roupas e modo de vida do nosso célebre fidalgo, e é preciso peneirar essas citações para entender como era absurdo para alguém JÁ NAQUELA ÉPOCA se deparar com o projeto de cavaleiro que era Don Quijote, que já usava roupas foras de época mesmo naquele início do século XVII, que tinha costumes assombrosos que já eram desconhecidos daquela geração etc.; sem essa ajuda, o leitor não se daria conta do IMENSO estranhamento das personagens ao encontrarem o fidalgo, e por que ele parecia sempre tão absurdamente deslocado e ultrapassado e ridículo.

Comecei falando da edição e já pulei para a história, não tem jeito; ela é tão lindamente narrada que eu, na minha proverbial vagareza, já devorei quase trezentas páginas e estou entrando na quarta e última parte do primeiro livro. Don Quijote e Sancho Panza são duas criações magníficas, donos de idiossincrasias e profundidades inigualáveis, funcionando por diversos movimentos que os fazem ser arquetípicos em praticamente todas as frontes: no idealismo, na amizade, na confiança, na ingenuidade, na iconoclastia fantasiosa, no valor, que, afinal, os dois possuíam e possuem, pois não morrerão jamais, vivendo com muita justiça a fama de serem dois dos mais famosos tipos da literatura em todos os tempos.

Por preconceitos infundados, imaginamos que, por tantas e tantas adaptações e referências, histórias clássicas assim já não possuem interesse ou nada de novo têm a nos mostrar; esse é o engano mais estúpido em que podemos incorrer, pelo menos em casos como o do Quijote cervantino, obra magnífica, estupenda, delirante, majestosa e que em todos os episódios e páginas merece o rol de elogios que o sonhador fidalgo consagra sempre à sua imagem de donzela, a Dulcinea que em verdade é Aldonza.

sexta-feira, 14 de janeiro de 2011

Pergunte ao pó

À parte algumas coisas que acabaram voltando à moda (LPs, por exemplo), eu nasci numa época divisora entre as águas da modernidade e da tradição; convivi com muita coisa impensável para as gerações que nascem agora, mas também muitas vezes só conheci essas coisas em seu ocaso. Há meses penso em sistematizar por uma simples lista a relação dessas coisas que me trazem um pouco de nostalgia e decepção por vê-las desaparecidas. Algumas delas seriam:

FICHAS TELEFÔNICAS
Os cartões também andam raros, nessa era de celulares, mas fichas telefônicas eu as tinha de reserva junto a moedas para ligar para casa em emergências, quando ninguém tinha consigo qualquer telefone móvel. O que nos leva aos dois próximos itens da lista.

PORTA-MOEDAS
Saquinhos para levar moedas e fichas telefônicas. Dava ainda para guardar Tazos (outro saudoso objeto da minha infância), chicletes, balas. Era um pesinho que as crianças e jovens e adultos carregavam com certa satisfação, ajudava um bocado. Hoje as carteiras têm espaço para guardá-las, ou simplesmente se junta uma quantidade suficiente para depois trocar no metrô, por exemplo.

PORTA-MOEDAS DE PLÁSTICO
Com divisórias para cada moeda, pelo tipo e tamanho! Nossa, isso é inesquecível. Eu tinha um azul, muito bacana, e creio ter tido um roxo também. Havia a versão "caseira", que também tenho até hoje, com um espaço bem maior (não era de bolso) e muito útil para armazenar uma considerável quantidade de moedas até que se desse a elas destino melhor.

CABINES TIRA-FOTO
Você sentava num banquinho, fazia uma pose e pronto, tinha uma foto. Podia ser sem moldura, para eventos profissionais, ou com corações, enfeites de toda sorte, para presentear algum amigo ou guardar de lembrança. Como hoje virtualmente todo celular tem câmera, também não vemos mais essas cabines em todo canto.

ENCICLOPÉDIAS
Nossa, eu achava um barato, mesmo. Pesquisava direto, folheava para ir a assuntos completamente aleatórios, lembro que cortei o dedo algumas vezes na nova Larousse que meu pai havia comprado, capa dura vermelha, uns vinte volumes. Esse simpático tipo de coleção ficou para trás com as enciclopédias virtuais, muito menos charmosas.

CARTAS
Como lamento aqui, objeto mais obsoleto hoje não há. Mas era delicioso o tempo de agonia que marcava a espera da resposta, essa falta de "instantaneidade" que hoje está extinta. E me lembro como fiquei feliz quando, moleque, recebi a primeira carta (de algumas) de João Carlos Marinho, então um dos escritores que mais me entusiasmava.

DISQUETES
Eu usei bastante isso na escola. Era mágico guardar tantos textos e tantos joguinhos e tantas coisas naquele pequeno quadrado, de cores variadas, ah, era muito legal colar a etiqueta com seu nome, escrever os nomes dos arquivos, mas quanta coisa cabia lá!, e no entanto não havia capacidade de armazenamento de nem 2MB... Como o mundo é grande quando somos pequenos!

REVISTAS DE INFORMÁTICA
Eu ficava impressionado, extasiado e muito feliz tardes e tardes jogando e rejogando e jogando e rejogando de novo pequenos releases que as distribuidoras de games liberavam para revistas e sites especializados (os célebres "demos"), decorava as músicas, descobria novas estratégias, clicava nos objetos que tinham alguma animação embutida nos menus, pegava lá wallpapers (coisa que hoje basta salvar qualquer foto do computador!), midis (!), sons engraçados, imagens do ClipArt para trabalhos escolares, entre mil outras coisas...

MÍNI-TELEVISÕES
Ideais para viagens, para dias em que acabava a luz (funcionavam com baterias ou pilhas grandes) ou simplesmente para levar para as barraquinhas (outra relíquia perdida), para o quarto, para onde se quisesse. Hoje os celulares têm televisões, a internet passa a programação ao vivo de muitos canais, no YouTube você confere o que perdeu se a luz faltou em sua casa. As simpaticíssimas míni-televisões são que nem filmes de faroeste: oficialmente ainda não estão extintas, mas é tão raro ver uma que ninguém nem se lembra mais...

Este post possivelmente terá continuação — a saudade é muita e a memória é pouca.

segunda-feira, 29 de novembro de 2010

A ironia

Passei semana passada pela minha última prova da faculdade. Finalmente me livrei desse lugar que só me trouxe dor de cabeça, aborrecimento, tristeza, que me fez conhecer gente cruel, ruim e desinteressante. Mas aos poucos todas as maldades vão perdendo o sentido, é natural ao ser humano ir se esquecendo de suas dores e seguir vivendo, procurando algum sentido para prosseguir. E comigo isso também acontece, mas eu não tenho como esquecer toda a infelicidade por que passei na fábrica acadêmica, e não posso pensar em tratar os negros anos em que lá estive como probleminhas bobos que não importam muito e provavelmente dos quais exagero as dimensões. Não. Eu sei que eu fui muito maltratado lá, e que não guardarei nenhuma recordação boa em meio a tanta opressão. Não tenho uma boa memória, mas basta eu reler alguns posts antigos aqui neste blogue para entender como me preocupava e sofria, como o que eles faziam era errado e como nunca mais recuperarei o que de bom havia em mim antes de eles destruírem tudo com seus métodos tirânicos e seu sistema negligente.

Por outro lado, esse aparente esgotamento do terror não me trouxe alívio. Sinto agora como se os cinco anos que desperdicei lá realmente fossem um nada, uma energia absurda que despendi sem obter com isso qualquer resultado, uma perda colossal de tempo. Cinco anos inúteis, nos quais nada aprendi ou apreendi e ainda me feriram com uma arma eterna, de deixar cicatrizes indeléveis. E percebi que agora, depois de tudo acabado, não posso olhar para trás e dizer que valeu a pena; só posso dizer que não sei mais o que fazer e que pelo menos uma fonte de angústia secou. Mas a incerteza reina mais forte que nunca, e me vejo como alguém que teve suas forças plenamente sugadas e depois foi atirado na arena de um adversário terrível, a fuga é impossível mas já não há como lutar.

Faculdade: os melhores anos da vida. Agora entendo. Só agora.

quarta-feira, 24 de novembro de 2010

Jabutigrama

Se tem uma coisa que não suporto é gente que se acha reformadora das coisas erradas do mundo. Justiceiros de final de semana, quem pensa que pode mudar algo porque no íntimo acredita que a maneira certa é só a sua.

O último exemplo desse tipo de comportamento está aqui. Para mim, tem TANTA coisa errada aí que eu vou comentar por itens:

1) Como assim, "devolva o Jabuti"? Se alegam que o prêmio é idiota, por que se importar com sua destinação?

2) Algum signatário da petição leu os livros do Chico, do Edney Silvestre E do José Rezende Jr.? Como querer discutir algo sem saber do que se trata? Como afirmar qual o "melhor" dos livros (como se isso já não fosse estapafúrdio o suficiente) sem ler todos os três em questão? E por que resumir o debate a essas três obras? Reclamam do reducionismo em sempre premiar Chico Buarque mas nem ao menos os leitores se dignam a conhecer e comentar outros trabalhos envolvidos no prêmio?

3) Que diabos de argumento é "Como pode o segundo lugar da subcategoria se transformar, depois, no primeiro lugar da categoria geral?"? É premiação automática? Categorias diferentes, vencedores diferentes, ora pombas. Não existe categoria "melhor romance e/ou livro de ficção do ano" ou "melhor livro de contos e/ou livro de ficção do ano", ou sei lá que outra bizarrice que os organizadores dessa ridícula petição imaginam. Engraçado que o pessoal lambe-botas do Oscar, esse prêmio tão cretino que é tido como o máximo da honraria de cinema por 90% das pessoas que o citam (e possivelmente 90% dos signatários dessa lista), não percebe que ocorre a mesmíssima coisa nessa e em dezenas de outras premiações? Ou então como eles explicam O pianista ter ganho os troféus de melhor diretor, melhor ator e melhor roteiro e ter perdido a estatueta de melhor filme para Chicago? Dois pesos, duas medidas? Onde está a petição "Martin Richards, devolva o Oscar"?

4) O que Chico Buarque tem a ver com os critérios, duvidosos ou não, de quem o premiou? "Chico, devolva o Jabuti"? Não deveria ser "Jabuti, faça premiações coerentes"? O que afinal querem, seriedade ou holofotes?

5) "Fez-se uma premiação política — e não literária." ? Literatura é nos livros, nas linhas, nas páginas que todos deveriam ler e analisar, e não em cerimônias solenes, entregas de prêmios e troféus. E por que a revolta só agora, centenas de anos desde que esse sistema é praticado?

6) Premiar Chico Buarque sempre que ele lança um livro pode não ser justo, mas não desrespeita QUALQUER regra do Jabuti. É o mesmo que indicar Meryl Streep ao Oscar (ele de novo!) todo ano, é uma questão de preferência dos realizadores do evento e só comprova a inutilidade do evento no mérito da análise da obra e da arte em si.

7) Uma petição mal escrita como essa não poderia nunca ser associada a um alegado desejo de fazer valer "justiça literária".

8) Por que a Record, com base em um episódio mal explicado apenas, retirou suas futuras candidaturas — impedindo autores estreantes e outros necessitados de se valerem do prêmio para conseguir um lugarzinho ao sol no desgastante mercado editorial brasileiro —? Espero francamente que reconsiderem essa decisão, que deixa a impressão terrível de que eles são apenas, em suma, maus perdedores.

Mas é claro que seria virtualmente impossível alguma coisa em que Reinaldo Azevedo se envolveu ter um mínimo de decência.

P.S.: Após meses de hiato, saiu a nova edição da Zingu!. Há alguns textos inéditos meus e alguns republicados, mas os reli agora há pouco e fiquei envergonhado. Acho que devo mesmo parar de escrever sobre cinema.

sexta-feira, 29 de outubro de 2010

Caçadas

Novamente me impressiona o quanto o vasto acesso aos meios de informação não só não nos torna mais sábios como parece justamente surtir às vezes efeito contrário; a vítima da vez é o sempre genial Monteiro Lobato, com uma polêmica tão imbuída de interesses obscuros que nem sei se dá para classificar de "politicamente correto" apenas. Na verdade, creio que é simplesmente falta de leitura; caso se detivessem na obra, entenderiam que quando Lobato escreve "Não é à toa que os macacos se parecem tanto com os homens. Só dizem bobagens.", não está em absoluto sendo preconceituoso com homens da cor negra (aliás, é uma interpretação tão absurda que não sei por que perco meu tempo a comentando); é óbvio e cristalino que é um comentário desgostosamente irônico sobre a natureza HUMANA, essa raça que não se controla também para ESCREVER bobagens, como bem prova essa abjeta tentativa de censura — aliás, talvez se buscassem as inspirações de Lobato veriam que Kipling também discute a natureza expansiva do comportamento dos macacos, sem nunca também ser racista ao fazer o tal paralelo com os homens.

É de buscar pêlo em ovo que se trata. Tia Nastácia é um dos personagens mais positivos que conheço. Ela é ignorante (no sentido mesmo de "falta de instrução"), supersticiosa, medrosa. Mas ao mesmo tempo, ela é assim por criação, por falta de oportunidades; e, forte como é, faz do desconhecido um impulso para a obtenção do conhecimento: ela perde o medo e passa a entender mais completamente a realidade das coisas que estão à sua volta. Lembro particularmente de um trecho de Reinações de Narizinho em que ela se depara com o Burro Falante, animal capaz de assustar qualquer pessoa comum: ela fica apavorada, por muito tempo não se aproxima, acha que é coisa do tinhoso e por aí vai; mas depois ela convive, ela fala com o educado quadrúpede, ela vê que nem sempre o que dizem que está errado de fato é errado, pecaminoso, ruim, mau. Ela e o Burro Falante ficam grandes amigos, trocam confidências, proseiam animadamente. Isso é um desenvolvimento sutil e brilhante de personagem.

Claro que aos ignorantes do governo não interessa entender o contexto da obra e nem observar o tratamento irreverente que Lobato consagra à discussão racial, ele que foi talvez o primeiro a dar voz às crendices do povo e a considerá-las parte integrante de nossa cultura, e não um folclore pagão, imoral e primitivo. Há em sua produção infantil um livro dedicado a esses relatos, intitulado justamente Histórias de Tia Nastácia. Ele nunca foi racista como tentam pintar, não há em suas obras qualquer desprezo ou menosprezo por etnias diferentes da sua, por outros povos — vide Aventuras de Hans Staden, em que Dona Benta comenta muito propriamente que o português é a língua mais bonita do mundo para quem o fala, sendo o italiano a língua mais bonita para quem a fala, o francês, o árabe, o japonês etc. —, e nem fazia pouco de outros pensamentos, aliás, Emília é a iconoclastia em pessoa.

Antes de dar minha opinião sobre as razões desse ridículo debate, os dois lados:

A FAVOR DO VETO AO LIVRO

Autor da denúncia contra o livro de Monteiro Lobato à Secretaria de Promoção da Igualdade Racial, Antonio Gomes da Costa Neto diz que a obra "ensina" a ser racista e que falta preparo aos professores para lidar com o tema. Costa Neto é servidor da Secretaria da Educação do DF e mestrando da UnB (Universidade de Brasília) na área de relações raciais.


Folha - Qual o problema em relação ao livro?
Antonio Gomes da Costa Neto -
Os professores, no dia a dia, não têm o preparo teórico para trabalhar com esse tipo de livro. Então, não é que ele deva ser proibido. O que não é recomendado é a sua utilização dentro de escola pública ou privada.

Quais são as marcas do preconceito racial no livro?
O livro deixou para trás as regras de políticas públicas para as relações étnico-raciais. Há estereótipos nas personagens como a Tia Nastácia e os animais. Todos os animais são relacionados à cor negra com preconceito. Sempre para diminuir o negro em relação ao branco.

Que efeito pode causar o uso da obra nas escolas?
A criança não nasce racista, ela aprende a ser racista. Quando você utiliza esse tipo de livro dentro das escolas, você a está ensinando a ser racista.

Monteiro Lobato é considerado um clássico da literatura brasileira. Não seria melhor que a escola usasse a obra abordando essas questões, em vez de não usá-la?
O sistema educacional brasileiro hoje não tem a preocupação de formar professores preparando-os para questões raciais. Quando eles chegam à sala de aula, não conseguem identificar no dia a dia o que é racismo.

CONTRA O VETO AO LIVRO

Milena Ribeiro Martins, especialista em Monteiro Lobato e professora de literatura brasileira e teoria literária da Universidade Federal do Paraná, defende a utilização das obras do escritor nas escolas e remete ao mediador de leitura a discussão sobre o tratamento aos negros.


Folha - Há elementos de racismo na obra do escritor?
Milena Martins - De fato, aparecem muitos ditos preconceituosos na obra de Monteiro Lobato. [Hoje] temos um linguajar politicamente correto que é tido como modelo, e tudo o que foge a ele é errado: preto é menos desejável que negro, melhor ainda é afrodescendente.
Na época de Lobato, é bom que a figura do negro apareça com o destaque de uma pessoa afável como a Tia Nastácia. Antes, aparecia só como denúncia social ou não aparecia. Então, temos uma personagem negra que assume voz importante, mesmo que seja chamada de negra beiçuda. Significa que ela está interagindo.

O CNE recomendou uma nota para acompanhar os livros. Qual é sua opinião?
Precisa haver o discernimento do professor. Um livro levado para escola não é lido sem a mediação do professor. Se vamos passar pente fino nos livros procurando preconceito, vamos ter que fazer em todos os clássicos. É humanamente impraticável.

O que a sra. acha do abandono do livro pelo governo?
O Lobato é um escritor contra o qual muitas vozes se levantam. Se o ponto fosse o abandono de "O Mercador de Veneza" pela questão dos judeus, não se faria porque é [William] Shakespeare. O livro de Lobato deve ser distribuído, ele é um grande escritor nacional.

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Os meus comentários são dois: 1) parece que o tal servidor não leu direito o livro, que é divertidíssimo e escrito com perfeição (alguns dos grandes momentos de Emília estão ali); 2) se leu de verdade e só comentou essas bizarrices falsamente socioeducativas, fica claro que o que realmente incomoda os egrégios servidores públicos é a denúncia veemente (e engraçadíssima) que Lobato faz, na segunda metade do livro, da burocracia da máquina governamental, da inércia deliberada e injustificada dos órgãos federais, da falta de preparo dos agentes oficiais mandados pelos chefes de governo, da incompetência enfim dos entes políticos para resolver o que quer que seja.

Parece que o Pedrinho achou mais uma presa em suas caçadas. Só que ela covardemente foge, grita e ataca pelas costas.

quarta-feira, 27 de outubro de 2010

Os outros

Existem algumas coisas que simplesmente não conseguimos fazer.

Eu, por exemplo, sempre fui péssimo para decorar coisas. Só decoro informações "não importantes", coisas de que gosto, nomes de filmes, autores de quadrinhos, títulos de livros. O que é muito ruim para a minha área de estudos, que é basicamente um amontoado de legislações e fórmulas processuais puramente baseadas no acúmulo de dados, na repetição, na decoreba.

No cursinho, estou estudando diariamente dezenas de peças (é assim que eles chamam os documentos de ações e recursos), para um exame que ocorrerá daqui a menos de três semanas. Meus colegas sabem de cor as coisas que os professores perguntam, eu não. Eles acham tudo fácil, eu não. Eles conseguem praticar todo dia e tirar disso algum proveito, eu não.

Certas coisas podem parecer fáceis a todo mundo mas constituir ao mesmo tempo um problema incontornável a você. Eu também pego de exemplo dirigir. Antes de tirar carta, eu olhava na rua e pensava: QUALQUER AMEBA CONSEGUE DIRIGIR. Ainda hoje penso assim. Mas qualquer ameba, não eu. Não que eu me sinta o suprassumo da inteligência (não me sinto), mas já percebi que não há cabimento em pegar aleatoriamente pessoas de outros lugares, outras vidas e aparências, para usar de comparação: "até esse aí sabe dirigir e dirige bem, logo, eu devo conseguir também". Depois que eu passei pelo exame da auto-escola, percebi que não tenho segurança em conduzir veículos; na vida real não existe vassoura colocada para medir baliza, e não dá para treinar em rampas ou ruas, se você tira o carro da garagem ninguém vai esperar você treinar — a única coisa que se espera é que você dirija logo.

Então um dia percebi que existem coisas para as quais temos aptidões, talentos e competências, e outras que, não importa o que digam sobre seu grau de dificuldade, sempre serão um mistério para nós.

Também nunca consegui amarrar rápido cadarços, o que é uma das razões para eu só usar sapatos que não os têm.